Novo Paradigma na Medicina: Qualidade de Vida como Indicador de Sucesso Médico

Joel Alves Lamounier

Eduardo CarlosTavares

O documento publicado pela Faculdade de Medicina da USP em conjunto com Associação Médica Brasileira e Ministério da Saúde relata um total de 635.706 médicos no Brasil ao final de 2025. Estimativa corresponde a uma razão de 2,98 profissionais a cada 1.000 habitantes. O dinamismo da evolução da população brasileira de médicos, ditado pela intensa ampliação de cursos e vagas de medicina, mostra um cenário quantitativo de médicos, com distribuição desigual no país. Inevitável que a procura por melhores posições no mercado de trabalho médico sofre as consequências deste crescimento exponencial. Ou seja, o médico em muitas situações atua em mais de um local, com intensa jornada de trabalho semanal. A qualidade de vida deteriora-se e o médico pode sofrer de “Burnout” com comprometimento da saúde física e mental.

 O modelo de médico preconizado pela Faculdade de Medicina fica cada vez mais distante de um passado visto com romantismo e humanismo para um novo cenário que consome a energia do médico. No curso de Medicina a formação segue o modelo com as bases e ensinamentos de Hipócrates, onde o médico assume uma postura de humano e semideus. A estrutura curricular tradicional prepara o médico para um bom clínico e cirurgião, adequado para tempos passados. Na atualidade, a inclusão de tecnologias medicas mudou bastante e se tornou um desafio para profissão médica. A inteligência artificial deve ser vista como aliado do trabalho médico. Portanto, que pode contribuir para melhor desempenho das atividades e reduzir os impactos de sobrecarga de trabalho. Vislumbra-se então uma possível melhoria na qualidade de vida do médico com novos modelos tecnológicos. O desafio é o médico se ajustar neste cenário onde a internet acelerou praticamente todos os momentos da vida profissional e familiar.

 Surge então um novo indicador de sucesso do trabalho médico: qualidade de vida. Neste novo paradigma, os desafios são muitos. A carreira médica, construída sobre um modelo de sucesso que ignora, quase completamente, o bem-estar do próprio médico. Na Faculdade de Medicina não foi ensinado como se preparar para os avanços científicos e tecnológicos, realidade do mercado de trabalho, preparação para aposentadoria, entender algumas ferramentas na área financeira, etc. Entretanto, o mais difícil nesta nova face da medicina, pode ser relacionada com o comportamento profissional. O médico precisa perceber que o modelo tradicional resulta na dedicação e envolvimento intenso com o paciente, até um ponto capaz de causar sofrimento e doença.

 Historicamente o trabalho médico é marcado por dedicação intensa, chegando as vezes a exaustão e tóxico. Na realidade, a visão da sociedade é de um profissional sempre pronto para prestar assistência aos pacientes no hospital, ambulatório e consultórios. Este modelo de trabalho compromete a qualidade de vida e coloca em xeque a figura do “herói incansável”. Essa mentalidade criou a ilusão de que trabalhar até a exaustão é prova de dedicação, mas de fato, é o caminho mais rápido para burnout, isolamento, adoecimento físico e desgaste emocional do médico. Mas não é somente uma questão de comportamento, também resultado da pressão financeira para maior ganho financeiro. O médico é parte do mercado e alvo de estratégias de marketing para vendas de diversos bens de consumo. Desde o ingresso na Faculdade de Medicina sofre as pressões sociais e adota a postura médica. O modelo consumista é cultivado, tendo estratégias como: festa de entrega do jaleco, formatura de “meio Médico” que talham os acadêmicos para futuros modelos de médicos inseridos na sociedade de consumo.

A formação médica é longa com 6 anos de curso, acrescido com 2 a 4 anos de especialização. Com isto ingressa no mercado de trabalho com 10 anos de estudo, ou podendo iniciar a profissão sem a especialização médica. O médico brasileiro chega aos 30 anos com anos de estudo, poucos ativos financeiros, atraso na formação de patrimônio, nenhuma educação formal sobre economia pessoal, alto custo de vida e insegurança previdenciária. Na vida profissional, competitiva, o médico não se prepara para aposentadoria. Alguns continuam a trabalhar mesmo sendo idosos. Grande parte dos médicos não tem hobbies, não desenvolveu interesses paralelos, não cultivou redes sociais fora da área da saúde, não aprendeu a ocupar o tempo com prazer, não estruturou um projeto de vida para depois da carreira.

Ponto crucial nesta reflexão é o analfabetismo financeiro do médico e a dependência da medicina, levando o médico a ficar “preso” à prática clínica. Sem planejamento financeiro real, o médico nunca se sente “pronto” para parar – mesmo quando está emocionalmente esgotado. De fato. o médico não deseja trabalhar em sua velhice, mas muitas vezes é necessário. A geração antiga, muitas vezes, normalizou o sofrimento a tal ponto que não consegue imaginar outro jeito de exercer a profissão. Entretanto, parece que a geração mais jovem percebeu isso e rejeita abertamente o modelo.

O médico tem uma mentalidade de longevidade produtiva. Mas isto significa que não é apenas viver mais. Deve-se procurar viver com propósito e autonomia. O trabalho até a velhice pode parecer vocação ou paixão. Porém, muitas vezes, pode refletir medo do vazio, de perder relevância, sem o jaleco perder a identidade, e mais grave ainda a própria identidade desaparecer. Assim, isto pode levar a reflexão de que a medicina se tornou não apenas profissão, mas refúgio, armadura, identidade e mecanismo de sobrevivência emocional. A transição de uma vida ativa intensa para algo menos intenso não é comum na Medicina, pela dependência do papel social do médico. Desta forma, o médico não sabe envelhecer profissionalmente. No curso de Medicina, na Residência Médica não houve treinamento e preparo para esta situação.

A falta de vida fora da medicina cobra um preço alto na aposentadoria. Grande parte dos médicos não tem hobbies, não desenvolveu interesses paralelos, não cultivou redes sociais fora da área da saúde, não aprendeu a ocupar o tempo com prazer, não estruturou um projeto de vida para depois da carreira. Ao chegar o momento da aposentadoria, torna-se uma ameaça, perda de identidade, sensação de inutilidade, ansiedade, depressão, isolamento e medo existencial. A sensação é de que “a medicina preencheu tudo, mas ao mesmo tempo esvaziou tudo o que existia ao redor”.

Neste cenário emerge sentimento de culpa por querer parar, que de certa forma, é reflexo de uma formação emocionalmente violenta. Ou seja, aprende desde a graduação este comportamento, sendo difícil até mesmo imaginar a aposentadoria como um direito – não uma fuga! Assim, a ideia de que “médico bom é médico disponível” cria um ciclo de culpa: por descansar, não produzir, querer menos, por priorizar a si mesmo. Comportamento aprendido desde tempos de acadêmico.

Outro sentimento internalizado pelo médico é a ideia de que “existe apenas para servir”. Isso destrói a autonomia emocional. Ao se aposentar, alguns médicos podem ter a sensação de uma prisão. O médico precisa aprender a viver sem ser indispensável, lidar com o silêncio, ter outros prazeres além da profissão, planejar o futuro e cuidar de si com a mesma dedicação com que cuida dos pacientes. Uma construção gradativa ao longo da vida profissional, construída fora do trabalho, pode minimizar esta situação.

Até então este é o paradigma da Medicina. Porém, com os novos tempos, surgem outras formas de “enxergar melhor” a vida profissional do médico. Uma história de vida intensa, ativamente dedicada a medicina parece não ser mais um indicador de sucesso na profissão. O que pode melhor indicar o sucesso do médico é uma vida completa, não uma carreira interminável! Assim, em uma nova era não basta salvar vidas. O médico precisa salvar a própria vida. O sucesso terá como novos parâmetros de medidas: saúde mental preservada, equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, liberdade, capacidade de reduzir carga horária sem sofrimento, hobbies, vínculos fora da profissão e autonomia par escolher quando parar de trabalhar. Nestas condições o médico pode se aposentar emocionalmente, fisicamente e financeiramente, comprovando que venceu na vida profissional.

Finalizando, a trajetória do médico incorpora comportamentos ao longo desde sua formação na Faculdade até suas atividades profissionais, muitas vezes privando o ser humano de outras atividades e prazeres na vida. O papel social e a visão do médico com um herói, dedicado e pronto para atender ao paciente, consome tempo e dedicação. Importantes conhecimentos sobre tópicos além da Medicina não são aprendidos durante a formação e residência medica.

Assim, preparar para realizar outras ações fora da medicina e também preparação para deixar de trabalhar, são experiências dolorosas e decisões difíceis. O que é natural aposentar-se após anos de trabalho, não deveria ser um abismo psicológico, nem uma sentença econômica, nem a perda do sentido de existência. Ao contrário o médico precisa entender que é um projeto, uma celebração e principalmente, uma escolha. A ruptura do paradigma medico atual é o caminho. Porém, isso só será possível quando deixarmos de glorificar a exaustão e começarmos a valorizar a vida do médico para além do consultório. Que sejamos iluminados pelos ensinamentos de Hipócrates nesta nova era da Medicina, com novos conhecimentos científicos e avanços tecnológicos voltados para o bem do ser humano.

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