OBESIDADE NA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA – UM DESAFIO
Virgínia Resende Silva Weffort
A obesidade foi reconhecida como doença pela primeira vez pela OMS em 1948. A atual Classificação Internacional de Doenças da OMS classifica a obesidade como “uma doença crônica complexa” e atribui-lhe um código específico (5B81). (1) Para o diagnóstico da obesidade são utilizados o IMC (índice de massa corporal), associado a algum método que comprove, frente ao excesso de massa corpórea, que se trata, efetivamente, de gordura e não de massa muscular, tal como a avaliação da medida da circunferência abdominal.(1–3)
Mudanças econômicas e sociais que surgiram nas últimas décadas, alteraram os padrões alimentares a nível global, tanto na quantidade de calorias ingeridas como na qualidade nutricional dos alimentos. Como consequência, a má nutrição, definida como deficiência, excesso ou desequilíbrio na ingestão calórica e de micronutrientes, representa uma questão importante no debate sobre saúde pública. Além disso a coexistência de problemas de desnutrição ou carência de micronutrientes e de sobrepeso, conhecida como dupla carga de má nutrição, tem se mostrado preocupante.(4) As principais mudanças envolvem a substituição de alimentos in natura ou minimamente processados de origem vegetal (arroz, feijão, mandioca, batata, legumes e verduras) e preparações culinárias à base desses alimentos por produtos industrializados prontos para consumo. (5)
A obesidade infantil é um problema em ascensão no Brasil e no mundo. De acordo com a OMS, em 2017, a obesidade afetou 9,4% das meninas e 12,4% dos meninos. Em 2021, dados do Sistema Único de Saúde (SUS) indicam um aumento para 13,2% entre crianças de 5 a 9 anos, com 28% delas apresentando excesso de peso, o que se mostra um alerta para um risco aumentado para desenvolvimento de obesidade no futuro.(6,7) Ainda em 2021, encontrou-se entre as crianças com menos de 5 anos, 14,8% com sobrepeso, e 7% com obesidade.(7) De acordo com o SISVAN (2024) foi registrado 2.110.381 crianças de 0 a 4 anos com excesso de peso no ano de 2023 no Brasil, e esses números demostram que mesmo com políticas voltadas a uma boa alimentação na primeira infância, o excesso de alimentos ultraprocessados continua a chegar com facilidade as crianças brasileiras.(8)
Os dados do Atlas mundial da obesidade de 2026, mostram que no Brasil 6.645 milhões de crianças de 5 a 9 anos e 9.920 milhões de adolescentes de 10 a 19 anos apresentam sobrepeso ou obesidade. Na figura 1 está ilustrada a prevalência crescente de 2000 até 2025 e uma previsão até 2040.(9)

Figura 1 Prevalência de crianças e adolescentes de 5 a 19 anos com sobrepeso ou obesidade no período de 2000 a 2025 e projeção até 2040(9)
A obesidade na infância frequentemente persiste na idade adulta, aumentando o risco de doenças crônicas não transmissíveis graves, como síndrome metabólica, diabetes mellitus tipo II, doenças cardíacas, pulmonares, dermatológicas, ortopédicas, psiquiátricas, psicológicas, gastrointestinais, hepáticas….. e certos tipos de câncer.(3,10)
Os fatores predisponentes para obesidade são bem divulgados em várias pesquisas.(11) O Atlas destaca alguns fatores evitáveis e a percentagem de ocorrência no Brasil:(9)
- Pré-natal: valor agregado de exposição ao IMC elevado entre mulheres de 15 a 49 anos 32,9%
- Pré-natal: prevalência de diabetes tipo 2 entre mulheres de 15 a 49 anos 3,7%
- Pré-natal: valor agregado de exposição ao tabagismo entre mulheres de 15 a 49 anos 8,6%
- Primeira infância: valor agregado de exposição ao aleitamento materno inadequado em bebês de 1 a 5 meses 51,7%
- Crianças em idade escolar, incluindo ensino fundamental e médio, que recebem alimentação escolar 100,0%
- Consumo médio diário de bebidas açucaradas por crianças de 6 a 10 anos 150-200ml
- Adolescentes em idade escolar de 11 a 17 anos que não atingem as recomendações de atividade física. 84%
Ainda podemos destacar o sedentarismo, excesso de telas, horas de sono inadequadas, alimentação incorreta. (5)
o Guia alimentar da população brasileira (12,13) definiu 5 tipos alimentos de acordo com seu processamento, que também foi adotado pelo Departamento de nutrologia da SBP: (13) in natura; minimamente processado; ingredientes culinários processados; processado; e ultraprocessado.
No Brasil houve um aumento da ingestão calórica de 10 para 23% nos últimos anos, as custas aumento do consumo dos alimentos ultraprocessados.(9) O que deve ser ensinado de modo sistemático para as famílias é o aprendizado da leitura de rótulos. Observar a lista de ingredientes presente no rótulo dos alimentos processados e ultraprocessados; número elevado de ingredientes (cinco ou mais), ingredientes com nomes pouco familiares e não usados em preparações culinárias, alimentos ricos em sódio, açúcar, gordura hidrogenada ou saturada, corantes, conservantes. O perfil nutricional estabelecido pela legislação de rotulagem e publicidade de alimentos tem identificado, nos rótulos, os produtos com excesso de sódio, açúcar e gordura que predispõem a obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares. Estimular o consumo de alimentos in natura e minimamente processados deve ser a regra e para isto é preciso conhecer as fontes alimentares e suas vitaminas. Conhecer os grupos alimentares e a quantidade que deve ser consumida em cada faixa etária, como mostra a pirâmide alimentar infantil, figura 2, (14). Destacando que a obesidade cursa também com deficiência de micronutrientes (vitaminas e minerais), sendo importante a orientação adequada sobre a importância do consumo de todos os grupos alimentares, como também ingerir água.

Figura 2 Pirâmide dos alimentos infantil.(14)
Considerações finais
É preciso olhar para obesidade não só como escolhas individuais, levar em conta a insegurança alimentar e nutricional, o ambiente alimentar (disponibilidade e preço), publicidade de alimentos direcionados as crianças (reduzir a exposição de crianças ao marketing de alimentos), a oferta de alimentação escolar, urbanização e ausência de espaços seguros para atividade físicos (criando diretrizes nacionais para a prática de atividade física em crianças e adolescentes de 5 a 19 anos), o controle das telas, o aumento de atividades ao ar livre, fortalecimento da atenção primária à saúde, com a inserção do pediatra na linha de cuidado da alimentação na infância e adolescência.
É melhor prevenir a obesidade, mas, se já está instalada, deve-se acompanhar o paciente longitudinalmente, com atendimento individualizado, com orientação alimentar e nutricional para construir uma autonomia do indivíduo, sem estigmatização.
Referências bibliográficas
1. Rubino F, Cummings DE, Eckel RH, Cohen R V, Wilding JPH, Brown WA, et al. Definition and diagnostic criteria of clinical obesity. Lancet Diabetes Endocrinol. 2025 Mar;13(3):221–62. doi:10.1016/S2213-8587(24)00316-4
2. Phelps NH, Singleton RK, Zhou B, Heap RA, Mishra A, Bennett JE, et al. Worldwide trends in underweight and obesity from 1990 to 2022: a pooled analysis of 3663 population-representative studies with 222 million children, adolescents, and adults. The Lancet. 2024 Mar;403(10431):1027–50. doi:10.1016/S0140-6736(23)02750-2
3. WHO. https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/obesity-and-overweight. 2025. Obesidade e sobrepeso.
4. Organização Mundial da Saúde. https://www.who.int/publications/i/item/WHO-NMH-NHD-17.3. 2022. A dupla carga da má nutrição: resumo de políticas. https://www.who.int/publications/i/item/WHO-NMH-NHD-17.3.
5. Weffort VRS, Ued FV, Santos NVI. Avaliação nutrológica em pediatria. In Nutrição em Pediatria: da neonatologia a adolescência Weffort V, Lamounier Joel. 3a ed. Manole, editor. Barueri: Weffort, Virginia & Lamounier, Joel. Nutrição em Pediatria: da neonatologia a adolescência; 2024.
6. Ministério da Educação. 2018. MEC – https://portal.mec.gov.br/component/tags/tag/obesidade-infantil. 2018. p. infantil. Obesidade infantil é tema do programa Salto para o Futuro.
7. Ministério da Saúde 2021. MS https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2021/junho/obesidade-infantil-afeta-3-1-milhoes-de-criancas-menores-de-10-anos-no-brasil. 2021. Obesidade infantil afeta 3,1 milhões de crianças menores de 10 anos no Brasil.
8. Ministério da Saúde. SISVAN. 2024. 2024. Boletim Epidemiológico.
9. Federação Mundial da Obesidade 2026. https://data.worldobesity.org/publications/WOF-Obesity-Atlas-2026-V02–Portuguese.pdf. 2026. Atlas Mundial da Obesidade 2026 Obesidade Infantil.
10. Weffort V, Lamounier J. Nutrição em Pediatria: da neonatologia a adolescência. 3a ed. Manole, editor. Vol. 1. Barueri; 2024. 1–1376 p.
11. Nogueira-de-Almeida CA, Weffort VRS, Ued F da V., Ferraz IS, Contini AA, Martinez EZ, et al. What causes obesity in children and adolescents? J Pediatr (Rio J). 2024 Mar;100:S48–56. doi:10.1016/j.jped.2023.09.011
12. Brasil. ministério da saúde. secretaria de atenção à saúde. departamento de atenção Básica. Ministério da saúde. www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-brasil/publicacoes-para-promocao-a-saude/guia_alimentar_populacao_brasileira_2ed.pdf. 2014. Guia alimentar para a população brasileira.
13. Departamento científico de nutrologia – SBP. SBP – 5a.ed. 2024. p. 1–208. Manual de Alimentação: orientações para alimentação do lactente ao adolescente, na escola, na gestante, na prevenção de doenças e segurança alimentar/ Sociedade Brasileira de Pediatria.
14. Philippi ST, Lazarin T, Weffort VRS. Pirâmide dos alimentos infantil. 1a ed. Manole, editor. Barueri; 2025.